Crónicas de Gestão | Jornais, Hambúrgueres e “Janelas”
30-10-2014
Vítor Ferreira
Diretor Executivo da D. Dinis, Business School
As vendas de anúncios da empresa Google representam hoje mais do dobro do total das vendas de anúncios em jornais. Este é um dado extraordinário, que representa mais uma das mutações que temos apregoado nestas páginas. Por um lado, temos mais um sinal da “destruição criativa” de Schumpeter, com novos setores a substituírem os antigos (novos setores, que nascem na maioria dos casos, como concorrentes indiretos – há 16 anos, qualquer Jornal olharia para o Google como “apenas” um motor de busca). Por outro lado, verificamos de novo a tendência para os novos setores serem muito menos “trabalho intensivo” do que os antigos. Hoje, a indústria da imprensa moveu-se para a internet e procura ainda novos modelos de receita, que permitam a sua sobrevivência. No limite, a mesma continuará a existir como um mercado de nicho (há sempre um público específico que lê imprensa escrita e anunciantes que os procuram atingir).
A empresa McDonald’s, depois de um boom ligado à crise que evidenciou a procura de comidalow cost, registou a maior quebra mensal de receita global dos últimos 20 anos – 3,8%. Neste caso, esta empresa que tem conseguido prosperar como uma verdadeira máquina de eficiência alimentar (a capacidade de produção e de logística global da empresa é excecional), enfrenta hoje uma panóplia de alternativas quase tão baratas, mas com uma qualidade percebida maior (veja-se o caso da cadeia nacional H3, um caso de estudo de sucesso a diversos níveis) ou com um apelo saudável, que não é, para já, replicável dentro da empresa. No fundo, a empresa tem, tal como os jornais, uma necessidade de evoluir para acompanhar as tendências socioculturais.
Finalmente, a empresa Microsoft (MSFT) parece perceber a evolução dos tempos demonstrando “capacidades dinâmicas” (capacidade de uma empresa aprender a fazer algo novo), sendo hoje a 4ª maior empresa global em termos de capitalização. Na verdade, a MSFT está hoje centrada em serviços empresariais (do software de gestão ao mais prosaico Office), o que explica o facto do crescente poderio da Apple no mercado residencial e móvel não ter impedido o seu crescimento.
Resumindo, depois de gloriosas décadas, a imprensa cai nas malhas da tecnologia, enquanto o McDonald’s luta hoje com uma consciencialização que resulta, em parte, também do facto da informação sobre produtos, alimentos e saúde estar acessível em todo o mundo (gerando milhões de pesquisas que enriquecem o Google). Finalmente, a MSFT reaprendeu a “andar”, substituindo os seus velhos modelos de receita por uma nova forma de competir.
Crónica publicada no Jornal de Leiria a 30 de outubro de 2014.