Crónicas de Gestão | O fim do capitalismo
27-07-2015
Dr. Vitor Ferreira
Diretor Executivo da D. Dinis Business School
Este não é um texto de extrema-esquerda a vilipendiar a maldição dos mercados. Trata-se apenas de uma reflexão inspirada pelas crónicas sobre o fim do emprego e pelo livro Pós-capitalismo de Paul Mason. A questão não passa pela crítica ao modelo capitalista puro, mas sim à sua decadência num contexto social e tecnológico diferente daquele que caraterizou a sua ascensão. Um modelo económico não tem de sobreviver para sempre e isso é evidente pela forma como o feudalismo deu origem ao mercantilismo e este deu origem ao capitalismo (pelo menos na Europa Ocidental, já que na Europa de Leste, Japão e China, os sistemas semifeudais deram origem a modelos com caraterísticas fascistas ou comunistas).
Um dos problemas do capitalismo no contexto moderno está ligado a uma economia de abundância (de informação e de conhecimento), onde os ativos essenciais são intangíveis e têm caraterísticas de bens-públicos. O conhecimento e a informação, ao contrário dos outros recursos, não se gastam quando utilizados e têm mesmo tendência para aumentar de valor. Por outro lado, a sua utilização é não rival (todos podemos usar o mesmo conhecimento simultaneamente). Neste contexto, o que custa a produzir é a primeira unidade de algo (um medicamento, um filme, um software) e as restantes têm custos marginais de produção próximos de zero. Se a este contexto adicionarmos que os bens físicos estão cada vez mais próximos desta realidade (custos marginais de produção extremamente baixos) e que são necessárias cada vez menos pessoas para produzir um bem (em virtude da automação de tarefas físicas e intelectuais, como já vimos nestas crónicas), o capitalismo gera poucas respostas para a distorção da relação entre capital e trabalho e da necessidade de haver salários para consumir bens, alimentando o ciclo virtuoso dos últimos 80 anos. Por outro lado, o sistema capitalista tende a equilibrar-se devido ao comércio e fluxos monetários internacionais, sendo que, desta forma, o declínio europeu é apenas um sintoma da aproximação das classes médias mundiais em termos de poder de compra e benefícios sociais (chinesa, indiana, europeia, americana – umas em ascensão e outras em declínio).
Para já os mercados continuam a ter uma resposta a algumas destas questões, mas os sistemas políticos e sociais dos próximos 40 anos têm de ser capazes de antecipar uma mudança profunda, sob risco sofrermos um ajustamento doloroso.
Crónica publicada na edição de 23 de julho de 2015 do Jornal de Leiria.