Crowdfunding | Uma ameaça ou uma oportunidade para os bancos?
16-05-2016
Por: Miguel Matias
Gestor Cross-Selling na CGD. Professor universitário e Docente da D. Dinis Business School. Membro associado do Centro de Investigação em Gestão para a Sustentabilidade do Instituto Politécnico de Leiria. Doutorado em Gestão de Empresas.
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O financiamento colaborativo (ou crowdfunding) é (mais) um instrumento de captação de recursos que o poder da internet, no âmbito da economia da partilha, colocou ao serviço do empreendedor, e que se materializa no facto de um conjunto de pessoas apoiar financeiramente e de forma direta um projeto, mediado por uma plataforma especializada, que se encarrega de o difundir e apresentar à comunidade, recolher desta o capital solicitado e entregá-lo ao empreendedor. Podemos então identificar três figuras no crowdfunding: o beneficiário que desenvolve o projeto a ser fi nanciado; a multiplicidade de investidores “anónimos” que financiam o projeto e a plataforma de negociação que funciona de intermediário entre o beneficiário e os investidores.
O alcance da internet e a sofisticação tecnológica das plataformas existentes, a par com os baixos custos de transação, rapidamente vieram mostrar ao mundo que o crowdfunding não se trata de mais uma moda passageira ou de uma tendência dos novos tempos (onde imperam as redes sociais e as plataformas digitais), mas antes algo que veio para ficar1 e que pode vir a tornar-se um concorrente sério dos instrumentos de financiamento tradicionais, caso os principais intermediários financeiros que os fornecem (onde se incluem os bancos e a indústria do capital de risco) não consigam incorporar no seu modelo de negócio as virtualidades tecnológicas do financiamento participativo. A regulamentação recente do crowdfunding em Portugal vem colocar na ordem do dia o contributo efetivo que este instrumento pode representar para o desenvolvimento e sustentabilidade de um empreendedorismo mais inclusivo e, consequentemente, para o crescimento (menos centralizado) da riqueza e do emprego2, mas também novas interrogações acerca do seu posicionamento e relevância no mercado de financiamento, em particular num país onde 95% das empresas são microempresas e as fontes tradicionais de financiamento, geralmente, não participam na fase inicial do seu ciclo de vida3.
O Crowdfunding e os Bancos
São os projetos sem histórico, dimensão ou património suficiente para receber financiamento bancário, e cujas especificidades também não os tornam atraentes para investidores de capital de risco5 (inc. business angels), que encontrarão valor no recurso ao crowdfunding, caso o seu enquadramento legal consiga alcançar um equilíbrio otimizado entre flexibilidade e baixo custo no acesso, segurança e proteção dos investidores e projetos apoiados e a formatação de organizações societárias mais complexas, em particular as decorrentes de operações de equity crowdfunding. Daí que as perspetivas de crescimento acelerado do crowdfunding nos próximos anos podem induzir um duplo emagrecimento do negócio bancário “puro”, por via da redução das necessidades de financiamento bancário nalgumas tipologias de PME e da canalização de algum aforro dos particulares (dos bancos), para a sua aplicação direta em investimentos empresariais, via crowdfunding. Mais que uma postura de oposição ou combate concorrencial, os bancos podem explorar, na sua aproximação ao crowdfunding, importantes sinergias, ao nível do aproveitamento de economias de escala e de experiência e, sobretudo, em termos da partilha e gestão do risco de crédito e da oferta de novas propostas de valor. Em termos da partilha e gestão do risco de crédito, o crowdfunding pode constituir uma oportunidade para os bancos, quer refletindo-se na sua participação na estrutura de financiamento de um determinado projeto empresarial, desde que este tenha já garantida uma quota parte de financiamento via crowdfunding6 , quer robustecendo o conhecimento acerca do potencial de sucesso de determinado negócio (inovador e com pouco ou nenhum histórico) a financiar, através da avaliação da reputação digital do projeto ou do seu promotor e/ou do grau de aceitação de determinado produto ou serviço, em função do resultado final da campanha de crowdfunding associada. Estas novas variáveis poderão ser, por exemplo, incorporadas num modelo de credit scoring, indo além dos métodos tradicionais, baseados essencialmente em dados históricos, o que permitirá melhores avaliações do risco de crédito. Em termos da oferta de novas propostas de valor, a introdução destas plataformas no modelo de negócio dos bancos (com intervenção e gestão direta ou em regime de complementaridade), permitirá enriquecer e complementar a sua oferta (inc. cross-selling), atrair novos públicos (investidores e empreendedores), obter uma fonte adicional de comissionamento e aprender mais sobre o comportamento dos clientes7, afinando as estratégias comerciais em prol do aumento da sua fidelização.
Os Desafios que se Seguem
O crowdfunding pode efetivamente democratizar o acesso das empresas a financiamento e o acesso do público aos mercados financeiros, de uma forma mais simples, eficiente e transparente que aquela que é proporcionada pelos Bancos! Para isso será necessário assegurar um quadro regulamentar e regulatório equilibrado, que credibilize e valorize esta fonte de financiamento junto de investidores e empresas, afirmando-a como realmente complementar e, nalguns casos alternativa, ao financiamento bancário. Contudo, os modelos de crowdfunding existentes não conseguem substituir formas tradicionais de financiamento em fases mais avançadas do investimento, em que são necessários grandes montantes, restando-lhes o papel de mobilizadores de ideias de negócio e de complemento a outras formas de financiamento. Daí que a aproximação gradual entre bancos e crowdfunding se afigure quase natural e profícua para ambos, tendo já sido iniciada por vários bancos europeus (ABN AMRO, Royal Bank of Scotland, Santander UK, Societé Générale, entre outros). De uma forma sintética, as plataformas de crowdfunding aportam criatividade, inovação disruptiva e soluções simples de fi nanciamento e investimento para novos públicos / mercados e os bancos aportam reputação, capacidade e um forte complemento das propostas de valor, com um objetivo comum de oferecer ao mercado soluções globais de financiamento mais completas e valiosas no conteúdo e mais abrangentes no seu alcance!
1. Em 2013, o Banco Mundial, no seu relatório intitulado “Crowdfunding’s Potential for the Developing World”, estimava que o mercado global de crowdfunding em 2025 pode chegar próximo dos 100 mil milhões de dólares, quase o dobro da indústria de capital de risco global de hoje.
2. Ao promover mais investimentos éticos e locais, por exemplo.
3. Em particular, após a crise mundial de 2008, assistiu-se no sistema bancário a uma muito maior diferenciação em termos de requisitos regulatórios de capital, entre crédito de bom e mau risco, desencadeando pela generalidade dos operadores no mercado uma análise de risco mais conservadora e um foco comercial muito direcionado para as melhores empresas e com algum histórico no mercado, colocando muitas empresas e projetos empresariais de pequena dimensão e com histórico reduzido arredados do canal de crédito bancário.
4. O crowdfunding funciona neste caso também como instrumento de marketing e screening de mercado, auxiliando os empresários a testar a popularidade do seu produto/serviço, ao mesmo tempo que asseguram fi nanciamento para a empresa.
5. Que tendem a selecionar projetos facilmente escaláveis e com estratégias de saída bem defi nidas (elevada probabilidade de venda futura de participação com mais valia).
6. Em particular, se o projeto por via do equity crowdfunding tiver reforçado a sua base de capital.
7. Em linha com a grande preocupação dos bancos em melhorar a experiência cliente e continuar a alimentar e extrair valor de uma abordagem relacional, em detrimento da transacional (mesmo através de canais à distância).
Artigo publicado originalmente na inforBANCA 107 | mai-ago 2016.